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Revista Parcerias Estratégicas

Ciência, Razão e Paixão

Ilya Prigogine

O papel desempenhado pela paixão e, mais genericamente, pelos elementos irracionais no processamento do conhecimento é assunto do maior interesse, e de imensas dimensões, de tal forma que só posso arranhar a superfície na discussão dos aspectos com os quais estou mais familiarizado.

À primeira vista, parece que estamos lidando, aqui, com um paradoxo. Não estará a ciência, por definição, além da paixão e, até, além das prementes necessidades da sociedade? Era isso que Einstein pensava: como se sabe, ele acreditava que os cientistas poderiam encontrar emprego como faroleiros. Poder-se-ia imaginar quão criativo esses faroleiros se tornariam, a longo prazo: eu temo que após alguns anos eles mergulhariam no solipsismo e nas divagações.

A ciência é a expressão de uma cultura. Suas fronteiras são difíceis de assinalar. No século XIX, Faraday preferia ser conhecido como "filósofo naturalista" a ser conhecido como "cientista". Com efeito, a palavra "ciência" não foi usada com seu sentido atual antes do século XVII. De qualquer forma, refere-se ao diálogo com a natureza. Mas a natureza não é uma doação: ela representa uma construção na qual tomamos parte. Eu sempre gostei quando Heisemberg comentava o que Bohr havia dito a esse respeito durante uma viagem ao Castelo Krönberg, na Dinamarca: "não é estranho como este castelo parece completamente diferente quando pensamos nele como o lugar em que Hamlet viveu? Como cientistas, acreditamos que um castelo é feito de pedras, e admiramos a maneira pela qual o arquiteto as reuniu. As paredes, os tetos metálicos e as torres das igrejas que compõem o castelo não deveriam mudar, porque Hamlet viveu aqui; entretanto, isso muda tudo. De repente, as paredes e as trincheiras falam uma verdade totalmente diferente. Além disso, tudo o que realmente sabemos sobre Hamlet é que seu nome aparece numa crônica do século XIII. Mas todos sabem das questões levantadas por Shakespeare por intermédio do personagem Hamlet e do quanto da profundeza humana revelam; assim, ele também tinha de ter um lugar no mundo, aqui em Krönberg...".

Como pode uma pessoa desconhecer, nas meditações de Niels Bohr, o motivo principal da sua vida como cientista: a inseparabilidade entre a questão da realidade e o enigma da existência humana? O que é o Castelo de Krönberg, independentemente das questões que formulamos? As pedras podem nos falar das suas moléculas, do extrato geológico de onde foram retiradas, talvez das espécies extintas nelas contidas sob a forma de fóssil, das influências culturais que orientaram o arquiteto, ou das questões que conduziram Hamlet à sua morte. Nenhuma dessas questões é arbitrária, mas nenhuma delas nos permite uma referência colateral com relação à pessoa cuja presença lhes deu significação. As reflexões de Bohr mostram muito claramente sua concepção a respeito da inseparabilidade das questões da realidade da natureza daquelas questões da existência humana. Como pode uma pessoa ser indiferente a problemas que envolvem nossa existência? Como pode uma pessoa deixar de ver esses mesmos problemas simultaneamente com o olho da razão e o olho da paixão?

Frequentemente, tem-se especulado por que a ciência nasceu na Europa Ocidental ao invés de ter nascido na China, que tanto contribuiu para o desenvolvimento das nossas descobertas experimentais.

Essa é a questão enfaticamente proposta por Joseph Needham. Os séculos XVI e XVII, quando da formação da ciência ocidental, seguramente devem ter experimentado grande entusiasmo e fé. Leon Battista Alberti, o arquiteto e humanista florentino, asseverava que "os homens podem fazer tudo, se quiserem". Esse refrão se aplica aos grandes homens da Renascença: Leonardo, Kepler, Galileu, Bacon. Os próprios títulos dos maiores trabalhos de Kepler denotam o quanto representam de uma visão mágica do mundo: "O Mistério Cósmico", "Física Celeste", "As Harmonias do Mundo". Mistério, física e harmonia - que trio singular para um dos grandes fundadores da ciência moderna. Como podem os homens fazer "todas as coisas", como Alberti acreditava? Francis Bacon deu a resposta: os homens podem fazer todas as coisas, desde que obedeçam às leis da natureza. Mas obedecer as leis da natureza implica conhecê-las. Desde aquele tempo, as idéias de onipresença e onisciência tornaram-se estreitamente ligadas, tal e qual ainda se encontram na mente de grande parte de cientistas e de outras pessoas. Só muito recentemente, com as novas ciências da instabilidade e do caos, essa conexão foi posta em questão. O elemento emocional estava muito evidente durante o período de formação da ciência ocidental, mas, desde o fim do século XVIII, a ênfase foi deslocada para a razão, como uma necessidade lógica. Kant duvidada que houvesse algo como a criatividade científica. As leis da natureza haviam sido decifradas, decididamente, por Newton e tudo o que restou foi a aplicação dessas leis a uma gama de fenômenos cada vez mais variados. Atualmente, sabemos que o triunfo da ciência clássica foi efêmero. Atualmente, nossa visão de tempo, espaço e matéria tem muito pouco em comum com a visão de Newton.

A noção de uma criatividade "limitada" ainda persiste. Thomas Kuhn, em seu famoso livro sobre a Estrutura das Revoluções Científicas, distinguiu dois estados diferentes nas atividades das comunidades científicas: os períodos "normal" ou "anormal" estão associados a mudanças de paradigma. Novos paradigmas surgem quando surgem as contradições e forçam os cientistas a rever suas hipóteses; só, então, deflagram-se as emoções. Certamente, há exemplos que confirmam as teses de Kuhn: um deles é a descoberta da constante de Planck, no começo deste século. No entanto, acredito que, de maneira geral, a criatividade científica está muito longe de ser limitada por mudanças de paradigma no sentido defendido por Kuhn. Nenhuma contradição apareceu na Física quando Boltzmann inseriu a flecha do tempo na estrutura da Física, ou quando Mach buscou repensar os limites da Mecânica pelo questionamento do Princípio da Inércia. E com respeito à Teoria da Relatividade de Einstein (a qual ainda nos referimos)? Não é essa tentativa de realizar um grandioso sonho - a colocação da Física em termos geométricos - que se refere a ambas as tradições platônica e cartesiana?

Já mencionei o impacto da síntese de Newton: acredito que foi, por si só, um curioso amálgama da razão com a paixão. A parte mais importante da síntese de Newton foi o enunciado de uma lei da natureza. Esse conceito inteiramente original é peculiar à visão científica ocidental. O princípio de Newton correlaciona forças com acelerações. Este princípio - verificado por mais de cem vezes, e que serve de base para ulteriores extensões ( Mecânica Quântica ou Relativista) - tem duas características essenciais: determinística e reversível no tempo. Ser determinista significa que se conhecemos as condições iniciais de um corpo material, podemos calcular sua posição em qualquer momento, no futuro ou no passado. Ser reversível significa que o passado e o futuro desempenham o mesmo papel. Entretanto, essa característica, especialmente a reversibilidade temporal, parece contradizer cabalmente tudo o que nos rodeia. Seja no que diz respeito a nossas próprias experiências ou aos fenômenos que nos cercam - na Química, na Geologia e na Biologia - o passado e o futuro desempenham papéis diferentes. Em toda parte, percebemos a flecha do tempo; como pode ser lançada do atemporal, segundo uma lei fundamental que ignora o tempo? Esse é um assunto pelo qual tenho-me interessado ao longo de toda a minha carreira científica. Diante dessa radical negação do tempo, parece-me que a posição particular da dinâmica não pode ser entendida sem o apelo aos elementos emocionais. Num livro recentemente publicado, eu e Isabelle Stengers escrevemos: "Talvez nós necessitemos de iniciar, destacando o quase inconcebível caráter da reversibilidade dinâmica. A questão do tempo - do transcurso que cria, preserva e destrói - tem sempre estado no centro das preocupações humanas. Muita especulação tem trazido a idéia da novidade à baila e afirmado a inexorável ligação entre causa e efeito. Muitas formas de ensinamentos místicos têm negado a realidade desse mundo incerto e transitório e tem definido uma existência ideal que permite escapar das aflições da vida. E nós sabemos quão importante foi na Antiguidade a idéia cíclica do tempo. Mas, como o ritmo das estações do ano ou como as gerações de homens, esse eterno retorno ao ponto de origem é, por si só, marcado pela flecha do tempo. Nenhuma especulação, nenhum ensinamento tem afirmado a equivalência entre o que é e o que não é feito; entre uma planta que floresce e morre e uma planta que renasce mais jovem e retorna à semente original; entre um homem que envelhece e aprende, e outro que se torna mais criança, depois um embrião e depois uma célula".

Entretanto, a dinâmica newtoniana - uma teoria que se identificou com o triunfo da ciência - implicou essa radical negociação do tempo, desde o princípio. Acredito que podemos encontrar as raízes dessa negociação nas concepções teológicas vigentes enquanto Newton vivia. Certa vez, Leibniz asseverou que Deus não conhece nenhuma distinção entre o passado, presente e futuro. "Uma pessoa suficientemente informada", ele escreveu, inspirada em São Tomás de Aquino, "em qualquer tempo dado pode prever todo o futuro". (Não significa nada o fato de que Leibniz viveu cem anos antes de Laplace). Uma vez que para Deus não existe tal coisa como o tempo, também não deveria haver para um cientista bem informado. Assim, a negação do tempo tornou-se parte do credo dos cientistas. Mesmo hoje em dia, os cientistas compartilham essa opinião; e, em sua extensão, é o ponto de vista expresso nos trabalhos de Feynman, Hawking e David Rulller: as leis fundamentais ignoram a flecha do tempo. A fenomenologia rejeita igualmente a flecha do tempo. Mas o que significam uma ciência que lança vida e nós que criamos essa ciência no âmbito da fenomenologia?

Como podemos aceitar, como fez Einstein, a idéia de que o determinismo reina absoluto, e ao mesmo tempo aceitar a idéia de que a criação da teoria se deve ao livre jogo da mente humana? Acredito que esse seja um exemplo de uma atitude emocional que marca claramente os limites da razão. Tenho-me sentido fascinado pelo paradoxo do tempo e gostaria agora de dizer algo a esse respeito.

Capítulo II

Voltamos ao século XIX, em particular aos anos que se seguiram à publicação de "A Origem das Espécies" (1859), por Charles Darwin. Esse livro introduziu nas ciências um novo paradigma baseado na idéia da evolução. Darwin não somente buscou demonstrar o fato da evolução, mas também sugeriu como deveria ser o mecanismo fundamental da evolução, baseado em flutuações e ampliações.

Seis anos mais tarde, o enunciado da Segunda Lei da Termodinâmica, por Clausius, veio como uma forma de resposta da Física para a Biologia. A Segunda Lei classifica os fenômenos físicos em reversíveis ou irreversíveis no tempo, sendo que essa última situação produz entropia. Com base no celebrado princípio de Clausius, a entropia expandia-se no universo. (De acordo com o pensamento que predominava naqueles dias, o universo era um sistema isolado par excellence).

Poucos físicos ou matemáticos levaram a sério a Lei de Clausius. Boltzmann foi uma exceção. Para ele, o século XIX foi o século de Darwin, e a noção de evolução era um elemento essencial na descrição da natureza. Ele tentou ir além e dar uma interpretação dinâmica à expansão da entropia. Não vou aos detalhes porque os exemplos da teoria cinética dos gases, estudada por Boltzmann, estão em todos os livros-texto sobre o assunto.

Assim como Darwin, Boltzmann acreditava que a irreversibilidade acontece em todos os níveis da população. As colisões entre moléculas conduziam um grande sistema, como o gás, a um estado de equilíbrio. Mas, a publicação das descobertas de Boltzmann deflagrava uma crise. Elas não contrariavam a lógica de tentar inferir a irreversibilidade das leis dinâmicas, as quais, como Newton havia demonstrado, são reversíveis no tempo. O grande matemático Henri Poincaré tinha duras palavras para comentar isso: os esforços de Boltzmann eram autocontraditórios desde o princípio. Esse julgamento negativo deveria ter provocado uma crise na Física, uma vez que colocava em questão a verdadeira base do nosso pensamento. O que significa pensar que não há fluxo de tempo? E, atualmente, não sabemos que o cérebro é um órgão orientado para o tempo? O futuro, nossos planos para amanhã são processados numa área diferente do cérebro, afastada daquelas áreas em que estão armazenadas nossas lembranças. Muito singularmente, a derrota de Boltzmann foi considerada um triunfo. Um triunfo da visão atemporal. Einstein não havia dito repetidamente: "O tempo (como irreversibilidade) é uma ilusão"?

Isso nos conduz à personalidade de Einstein, quem, eu acredito, ilustra melhor que ninguém o conflito entre a razão e a paixão. Por que ele tentou a todo custo eliminar das equações fundamentais da Física o tempo como irrreversibilidade? Ele sabia muito bem que, como todo mundo, ele estava ficando mais velho a cada dia que passava. O que significava para ele dizer que o tempo é uma ilusão? Talvez estivesse expressando sua fé em nossos símbolos: se não havia a direção do tempo nas equações da relatividade, ele escreveu, era porque não havia tempo no universo. Mas, isso não explica por que era tão importante eliminar o tempo. Um trecho em que Einstein explica o que são os cientistas talvez nos ajude a entender seus motivos. Descrevendo aquelas pessoas que os Anjos de Deus selecionariam se recebessem a ordem de afastar as criaturas desmerecedoras do Templo da Ciência, ele diz: "a maioria dos escolhidos são singulares, introvertidos e solitários, os quais, apesar de suas características comuns, na verdade, parecem-se uns com os outros muito menos do que aquelas outras pessoas banidas. O que os conduziria ao Templo? ... Um dos mais poderosos motivos que dirige as pessoas para as artes e para as ciências é a necessidade de afastar-se de uma vida prosaica, com seu vazio penoso e desesperado, para escapar do aborrecimento das incessantes mudanças dos desejos pessoais. As pessoas sensitivas são levadas a transcender sua existência pessoal e buscar o mundo da contemplação e do conhecimento objetivo. Esse motivo é comparável àqueles do desejo ardente de um habitante da cidade que foge do ambiente caótico e barulhento e busca a paz que reina no alto das montanhas, onde seus olhos avistam longe o ar puro e calmo e acariciam as linhas suaves que parecem ter sido criadas para a eternidade. Mas, além dessa razão negativa, há uma outra positiva. O homem sempre tentou desenhar para si próprio, e de maneira adequada, uma clara e simples imagem do mundo para vencer o mundo da experiência, substituindo-o, até certo ponto, por essa imagem".

Assim, a ciência parece ser uma forma de escapar da realidade, fugir de um mundo caracterizado pelo egoísmo e pelo conflito. Boris Kusnetsov escreveu um relato interessante da influência de Dostoievski sobre Einstein, que disse repetidamente que devia mais a Dostoievski do que a qualquer outro pensador. Isso pode parecer estranho, mas torna-se mais claro se nós pensarmos na atitude basicamente pessimista de Einstein com relação aos problemas da existência. Ele foi um homem muito solitário que conheceu poucos amigos, teve poucos alunos e, dito por ele mesmo, um relacionamento difícil com ambas as suas duas esposas. Poderia, também, dizer que viu a fúria do anti-semitismo e o pesadelo de duas guerras mundiais. É pouco surpreendente, então, que ele entendesse Dostoievski como uma testemunha do sofrimento humano, especialmente a faceta absurda mostrada na crueldade com as crianças e os animais. Einstein exprimiu claramente a idéia de que para ele, como tempos atrás para Lucretius Epicurus, a ciência era uma maneira de escapar da condição humana e contemplar o esplendor da razão agindo na natureza. Essa atitude encontrava-se profundamente enraizada em Einstein. Em 1916, quando estava seriamente doente, disse para a esposa de Max Born, quem o havia indagado sobre o medo da morte, que sentia tamanha solidariedade entre cada ser vivente que pouco importava quando uma existência particular nesse mundo infinito começava a terminar.

De acordo com Kusnetsov, foi pela extensão do pessimismo de Dostoievski que Einstein colocou a universalidade da lei acima da existência de seres individuais. Devemos curva-nos diante da beleza dessa visão, mas hoje podemos compreender melhor sua fragilidade.

Todos estão familiarizados com o itinerário científico de Einstein: primeiro, a relatividade especial, depois a relatividade generalizada, levando a uma síntese extraordinária que liga a matéria, o espaço e o tempo. E, finalmente, a aplicação dessas idéias à Cosmologia. De acordo com suas crenças, Einstein sugeriu a existência de um universo estático, de certa forma, a realização das idéias de Spinoza em termos do universo. Dessa forma, Einstein pretendia descrever o universo em termos geométricos. Ele tomou, de um modo novo, a idéia de Descartes com respeito à extensão do mundo, em contraste com o mundo do pensamento. A história ensina, no entanto, que todo dualismo é frágil, e que o universo geométrico de Einstein estava para se transformar inesperadamente num universo temporal, um universo em evolução do qual a famosa radiação residual a três graus absolutos é provavelmente a prova mais direta.

Indubitavelmente Einstein foi quem melhor incorporou o ideal que define esta vocação da Física - o ideal de um conhecimento que afasta da nossa concepção do mundo o que ele achava mero sinal da subjetividade humana. A ambição de certas práticas místicas sempre tem sido escapar dos fatos da vida, escapar dos tormentos e das desilusões de um mundo decepcionante em constante mudança. De certa maneira, Einstein considerou essa ambição como sendo a vocação dos físicos e, dessa forma, traduziu-a em termos científicos. Os místicos buscam experimentar o mundo como uma ilusão; Einstein tencionava demonstrar que, de fato, o mundo não era mais que uma ilusão e que a verdade é um universo transparente e inteligível, purificado de tudo que afeta a vida humana: nostalgia, ou lembranças dolorosas do passado, medo ou esperança no futuro.

Mas essa idéia de libertar o homem do medo ou da esperança no futuro provém de uma posição profundamente pessimista. Qual é o papel do homem? É abandonar o mundo ou participar da construção de um mundo melhor? A ciência - que, como temos visto, começou sob o signo de uma afirmação de Prometeu sobre o poder da razão - assim terminava em alienação. O que o homem pode fazer num universo determinístico em que ele é um estranho? Essa é a ansiedade contida em tantos escritos recentes, como os de Jacques Monod, que fala do homem como um cigano nos confins do universo, ou de Richard Tarnas, quem escreveu: "porque a mais profunda paixão da mente ocidental tem sido reunir-se com a base do seu ser". Eu acredito que isso é verdade e que o nosso período é, realmente, de reunificação, de busca pela unidade, como testemunha o profundo interesse na natureza demonstrado por tantos jovens hoje em dia, e o crescente sentimento de solidariedade do homem com relação a todos os seres viventes. Para exemplificar a transição no sentido desse novo estágio, eu contarei algo da minha experiência pessoal.

Capítulo III

Recebi uma educação humanística, e minha adolescência foi marcada pela insegurança política; isso me tornou por demais sensitivo ao tempo como elemento de mudança na condição humana. Fui um ávido leitor de Bergson, e seu livro "O Tempo é uma Invenção ou não é Nada" permanece gravado em minha memória. Durante os meus estudos científicos na Universidade Livre de Bruxelas, devo ter sentido, sem me ter dado conta, de maneira alguma, o quanto é difícil aceitar uma ciência segundo a qual o tempo é apenas uma ilusão. Como Karl Popper, outra testemunha dos nossos tempos, tem escrito, tal concepção "caracteriza a mudança unidirecional como uma ilusão. Isso faz da catástrofe de Hiroshima uma ilusão. Isso torna o nosso mundo uma ilusão, e com ele todas as tentativas de descobrir mais coisas sobre o mundo".

Com efeito, senti o mesmo choque que Bergson sentiu, e minha carreira intelectual foi similarmente vivida sob o signo do estudo do tempo. Mas, diante do mesmo dilema, reagi diferentemente. Ao contrário de assinalar limites para a ciência e restringi-la ao estudo de fenômenos reversíveis, fiquei convencido de que se a ciência estudava somente isso, era porque estava tratando apenas de fenômenos simples demais dos quais a irreversibilidade não tomava parte. Disso advém a minha convicção de que a irreversibilidade faria seu intróito na ciência somente com os fenômenos complexos.

Meu trabalho começou com a termodinâmica tradicional, como foi desenvolvida por Theóphile De Donder, meu professor. Fiquei impressionado pelo papel construtivo das situações de desequilíbrio, para as quais podemos encontrar um exemplo simples no efeito da termodifusão, que mostra como a produção de entropia geralmente tem um duplo papel que corresponde à criação simultânea da ordem e da desordem. Tomemos um sistema com dois componentes, hidrogênio e nitrogênio, misturados de forma homogênea e colocados num recipiente com dois compartimentos, A e B. Se nós submetermos esse sistema a uma fonte de calor externa, as restrições externas impõem um gradiente de temperatura no interior do sistema. O efeito da termodifusão consiste no fato de que um dos componentes, digamos o hidrogênio, concentrar-se-á no compartimento A, e o outro componente, no compartimento B. Mesmo nesse caso simples, temos dois fenômenos associados em ação. A fonte de calor induz à positiva produção de entropia, mas a difusão age como uma concentração de gradientes (isto é que é chamado de efeito da termodifusão); onde ele é capaz de atuar isoladamente, desacompanhado de outros processos, ele seria levado a uma negativa produção de entropia. Esse efeito demonstra que a irreversibilidade é um fenômeno dual, porque corresponde à dissipação (neste caso, do calor) e a formação da ordem (neste caso, a difusão térmica).

Esse é, obviamente, somente um exemplo muito simples, mas que me impressionou fortemente, e de alguma forma orientou meu itinerário científico, conduzindo-me primeiro ao estudo dos efeitos construtivos do desequilíbrio.

Atualmente, a física do desequilíbrio está muito desenvolvida. Surpresa atrás de surpresa: estruturas temporais regulares, reações químicas oscilatórias, estruturas temporais irregulares (caos dissipativo), estruturas espaciais. O papel construtivo do desequilíbrio é, atualmente, um fato comprovado, mas como ele pode ser compatibilizado com o conteúdo essencial da Lei de Newton, que implica equivalência entre o passado e o futuro? Como foi dito antes, esse é o paradoxo do tempo. O paradoxo do tempo está intimamente relacionado com outros - o paradoxo do quantum, o paradoxo cosmológico - os quais, em última análise, também estão relacionados com o papel do tempo. De uma forma definida, o paradoxo do quantum deriva do fato de que a equação fundamental na Mecânica Quântica é simétrica no tempo, por isso é nossa medida, nossas intervenções que dão direção ao tempo. Na Mecânica Quântica, o homem é o pai, ao invés do filho, do tempo. A moderna Cosmologia também propôs o problema do tempo, mas de uma forma muito dramática, com a descoberta da Grande Explosão (Big Bang). O que pode ser mais irreversível do que a transição de um pré-universo para o universo tal qual o conhecemos atualmente? Esse não é o local para aprofundar esses problemas: eles serão estudados detalhadamente no próximo livro intitulado "Tempo, Caos e o Quantum".

Claramente temos de enfrentar o fato de que a própria noção da lei da natureza deve ser revisada. Não podemos permanecer satisfeitos com leis que afirmam o equilíbrio entre o passado e o futuro. Neste documento, trato principalmente do conflito ideológico entre o tempo reversível (como foi formulado, por exemplo, na Física newtoniana) e retornos irreversíveis (como aparecem na termodinâmica). Como podemos ir além dos soberbos monumentos intelectuais representados pela Física Clássica, Quântica e Relativista? É aí que um maior evento - a renovação da dinâmica clássica segundo os trabalhos fundamentais de Poincaré no século XIX e, também, os trabalhos de Kolomogorov e de muitos outros no século XX - desempenhou grande papel. Seus estudos tornaram claro que nem todos os sistemas dinâmicos são similares. Os sistemas dinâmicos não podem ser limitados a exemplos periódicos ou regulares como o do pêndulo ou o movimento dos planetas.

Ao contrário, a maioria dos sistemas dinâmicos são instáveis. As trajetórias afastam-se exponencialmente, de forma que seus vestígios são inevitavelmente perdidos após certa duração de tempo. Essas descobertas refutam as objeções que uma vez foram feitas ao trabalho de Boltzmann. E como eu e meus colegas temos tentado demonstrar, um cientista pode ir além e formular leis de dinâmica que importem nesse caos. Entretanto, essas leis só se aplicam ao geral, a situações estatísticas, e não a trajetórias (ou funções ondulatórias individuais).

Leis formuladas dessa forma não nos dizem o que vai acontecer, mas o que poderá acontecer. Considere o universo em seu início. Ele não foi como uma criança que poderia tornar-se um músico, um advogado ou um sapateiro, mas todas essas coisas de uma só vez? Da mesma forma, a irreversibilidade aparenta que está baseada na instabilidade. Isto, é claro, conduz a uma substancial unificação da nossa imagem do mundo, tornando todos os variáveis aspectos da natureza compatíveis uns com os outros.

Nessa sala que estamos, temos ar - uma mistura gasosa em equilíbrio - e temos seres viventes: sistemas desequilibrados por excelência. Essa variedade é possível somente pelo papel construtivo da flecha do tempo, a qual mostra a diferenciação entre as propriedades da matéria em equilíbrio e em desequilíbrio.

Tal formulação, que considera a instabilidade e as flutuações, também ultrapassa o conflito tradicional entre "as duas culturas", porque as chamadas ciências humanas não podem ser organizadas sem a noção fundamental da evolução.
 
 

Capítulo IV

Está na hora de terminar.

A ciência é um diálogo entre o homem e a natureza. Um diálogo, não um solilóquio, como as transformações conceituais para as quais temos sido conduzidos nas últimas poucas décadas tem demonstrado. Com efeito, a ciência é parte daquela pesquisa pelo transcendental, comum a tantas atividades culturais: a Arte, a Música e a Literatura.

Esse relacionamento com o transcendental tem assombrado o homem desde a era paleolítica. As questões não foram propostas em vão; elas têm que conduzir o que consideramos as mais chocantes manifestações da criatividade humana em todos os domínios. Cada domínio tem seus próprios aspectos específicos, é claro, da mesma forma que cada período histórico tem sua representação. Frequentemente vivemos baseados na herança do passado e exploramos sua riqueza; isso ocorre quando a ciência é "razão". Em outros tempos, buscamos novas perspectivas e tentamos intuir que direção devemos tomar. Esses são os tempos em que a paixão e a razão tornam-se inestrincáveis.

Voltemos a Jacques Monod. Ao fim de "La Nouvelle Alliance", eu e Isabellle Stengers escrevemos: "Jacques Monod estava certo: a velha aliança animística está realmente morta e com ela todos os outros que nos viam como voluntários, sujeitos conscientes, cada um com seus próprios projetos, cada um fechado numa identidade estável e costumes duradouros, perfeitamente encaixados num mundo que nos era exclusivo. Este mundo cheio de propósitos, estático e harmonioso foi destruído pela revolução de Copérnico, quando ele lançou a Terra no espaço infinito. Nem é nosso mundo o da "moderna aliança": um mundo silencioso e monótono do qual velhos encantos haviam sido banidos, o mundo de funcionamento mecânico do qual nós supostamente recebemos jurisdição. A natureza não foi feita para nós, ou oferecida a nossos devaneios. Como diz Jacques Monod, chegou o tempo de assumirmos os riscos da aventura humana, mas se somos capazes disso, é porque essa é a maneira pela qual participamos atualmente da evolução natural e cultural. Essa é a lição que a natureza ensina, e nós só podemos aprendê-la. O conhecimento científico, derivado dos sonhos das relações inspiradas - isto é, sobrenaturais - pode ser visto hoje em dia como um "eco poético" e um processo natural da própria natureza: um amplo processo de produção e invenção em um mundo amplo, produtivo e inventivo. Chegou o tempo de novas alianças - laços que sempre existiram, mas sempre foram mal entendidos - entre a história do homem das sociedades humanas, do conhecimento humano e a aventura de explorar a natureza".

Nosso tempo é de expectativa, de ansiedade, de bifurcação. Longe de um "fim" da ciência eu sinto que o nosso período verá o nascimento de uma nova visão, de uma nova ciência cuja pedra de toque encerra a flecha do tempo: uma ciência que faz de nós e da nossa criatividade a expressão de uma tendência fundamental no universo. Esse é o sentimento que eu queria compartilhar hoje com vocês.

Ilya Prigogine nasceu em Moscou, Rússia, em 25 de janeiro de 1917; sua família deixou a Rússia logo após a Revolução, peregrinou pela Europa e, em 1929, estabeleceu-se na Bélgica.

Prigogine estudou na Universidade Livre de Bruxelas, onde tornou-se pesquisador na área dos fenômenos irreversíveis, simultaneamente foi nomeado Diretor do Center of Statistical and Thermodynamics da Universidade do Texas, EUA.

Recebeu o Prêmio Nobel de Química em 1977 por suas contribuições à termodinâmica do desequilíbrio, em particular à teoria das estruturas dissipativas.

RESUMO Ciência, Razão e Paixão Ilya Prigogine

É discutido o papel da paixão e, mais genericamente, dos elementos irracionais no processamento do conhecimento. Isso parece um paradoxo, porque a ciência, por sua própria definição, situa-se além da paixão. Ao mesmo tempo, a ciência é a expressão de uma cultura. Esse paradoxo é examinado ao longo da experiência e do trabalho de figuras cruciais na física, tais como Newton e Einstein. A ciência é o diálogo entre o homem e a natureza: parte da busca pelo transcendental que é comum a muitas atividades culturais: arte, música e literatura. Nosso tempo caracteriza-se pela expectativa, pela ansiedade e pela bifurcação. Longe de representar o "fim" da ciência, nossa era testemunhará o nascimento de uma nova concepção, uma nova ciência, cuja pedra angular suporta a flecha do tempo. Uma ciência que faz de nós e de nossa criatividade a expressão de uma tendência fundamental no universo.

ABSTRACT Science, Reason and Passion Ilya Prigogine

The role of passion and more generally irrational elements in processing knowledge are discussed. This seems to be a paradox, as science by definition is beyond passion. At the same time science is the expression of a culture. This paradox is examined through the experience and work of crucial figures in physics such as Newton and Einstein. Science is a dialogue between man and nature: part of the search for the transcendental which is common to many cultural activities: Art, Music, Literature. Our time is one of expectation, anxiety, and bifurcation. Far from there being an "end" of science, our period will see the birth of a new vision, a new science whose cornerstone encloses the arrow of time: a science that makes us and our creativity the expression of a fundamental trend in the universe.

 

[Internet/_private/menub_geral.htm]